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Sexta-feira, 29/02/2008 - 23:21hs

 
Fogo sobre o Camboja

Excelente artigo publicado no Le Monde diplomatique
Autores Taylor Owen , Ben Kiernan

Novas informações revelam: bombardeios dos EUA sobre o país, entre 1965 e 73, foram cinco vezes mais intensos que se supunha, e possivelmente os mais pesados da História. Brutalidade entregou população ao extremismo genocida do Khmer Vermelho — presságio do que pode ocorrer no Iraque

Taylor Owen , Ben Kiernan

Em novembro de 2000, vinte e cinco anos após o fim da guerra na Indochina, Bill Clinton tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos, depois de Richard Nixon, a visitar o Vietnã. Enquanto a cobertura da viagem pela mídia tratava do paradeiro de cerca de dois mil soldados norte-americanos ainda classificados como desaparecidos em ação, um pequeno ato de grande significado histórico passou quase despercebido. Num gesto humanitário, Clinton liberou um amplo banco de dados da Força Aérea sobre a campanha de bombardeio promovida pelos Estados Unidos na Indochina entre 1964 e 1975. Gerado por um sistema de alta tecnologia desenvolvido pela IBM, o banco de dados proporciona informações abrangentes sobre as surtidas efetuadas no Vietnã, Laos e Camboja.

O presente de Clinton destinava-se a facilitar a busca de explosivos não-detonados deixados no rastro dos bombardeios de saturação que varreram a região. Espalhado pelo campo, frequentemente submerso em terrenos de cultivo alagados, esse material bélico continua a despertar graves preocupações de ordem humanitária. Ele tem causado mutilações e mortes entre os camponeses, além de tornar terras valiosas praticamente imprestáveis. As organizações de desenvolvimento e de remoção de minas fizeram bom uso dos arquivos da Força Aérea nos últimos seis anos, mas não chegaram a sondar toda a profundidade de suas abismais implicações.

O banco de dados, ainda incompleto (ele apresenta vários períodos “obscuros”), revela que, de 4 de outubro de 1965 a 15 de agosto de 1973, os Estados Unidos lançaram sobre o Camboja uma quantidade de bombas muito maior do que se estimava até agora: 2.756.941 toneladas, totalizando 230.516 surtidas sobre 113.716 locais. Mais de 10% desse bombardeio foi indiscriminado: 3.580 locais apresentavam alvos “desconhecidos” e 8.238, simplesmente não apresentavam alvos. O banco de dados revela, também, que o bombardeio começou durante a presidência de Lyndon Johnson e não de Richard Nixon – portanto, quatro anos antes do que geralmente se supunha.

O impacto do bombardeio, objeto de muita discussão nas últimas três décadas, mostra-se agora mais claro do que nunca. A matança de civis no Camboja jogou um povo exasperado nos braços de um movimento guerrilheiro que até então recebera um apoio relativamente limitado da população, provocando a expansão da guerra do Vietnã no interior do Camboja, um golpe de estado em 1970, a rápida ascensão do Khmer Vermelho e, em última instância, o genocídio cambojano.

Ponto comum com o Iraque: recurso ao poder aéreo para combater uma insurgência heterogênea e volátil

Os dados demonstram que a forma pela qual um país decide retirar-se de um conflito pode ter conseqüências desastrosas, consideração que também se aplica aos conflitos armados da atualidade, inclusive, as operações militares dos Estados Unidos no Iraque. Apesar de muitas diferenças, a guerra no Iraque e o conflito cambojano apresentam em comum um ponto crucial: o crescente recurso ao poder aéreo para combater uma insurgência heterogênea e volátil.

Em 9 de dezembro de 1970, o presidente Richard Nixon telefonou para o seu conselheiro em assuntos de segurança nacional, Henry Kissinger, a fim de discutir a campanha de bombardeio do Camboja, então em andamento. Teatro secundário da guerra do Vietnã, iniciada em 1965 durante a presidência de Johnson, o Camboja – um reino neutro até nove meses antes do telefonema de Nixon, quando o general pró-EUA Lon Nol tomou o poder – já tinha recebido quase meio milhão de toneladas de bombas naquela altura (475.515 t). A primeira série de bombardeios intensivos, a Operação Menu, desfechada contra alvos localizados nas proximidades da fronteira com o Vietnã – rotulados Breakfast, Lunch, Supper, Dinner, Dessert e Snack [1] pelos comandantes norte-americanos – tinha sido concluída em maio, pouco depois do golpe de estado que derrubou o príncipe Sihanouk.

Nixon enfrentava uma crescente oposição do Congresso às suas políticas para a Indochina. A invasão do Camboja por terra, realizada por uma força conjunta dos Estados Unidos e do Vietnã do Sul em maio-junho de 1970, fracassara em seu objetivo de destruir as forças comunistas vietnamitas e agora Nixon queria uma escalada secreta dos ataques aéreos, a fim de neutralizar o comando móvel do Viet Cong/Exército Norte-Vietnamita (VC/ENV) nas selvas cambojanas. Após ter dito a Kissinger que faltava espírito de iniciativa à Força Aérea, Nixon exigiu a escalada do bombardeio no interior do Camboja: “Eles têm de ir fundo, mas fundo mesmo... Mandem tudo o que possa voar para lá e arrebentem eles! Não há restrição de milhas, não há restrição de verbas. Ficou claro?”

Kissinger sabia que a ordem de Nixon atropelava a promessa feita por ele ao Congresso, de que os aviões dos EUA não iriam além de 18 milhas da fronteira vietnamita; as suas próprias assertivas à nação, de que nenhum alvo situado a menos de um quilômetro de qualquer povoado seria bombardeado, e o parecer de setores das forças armadas, segundo os quais os ataques aéreos equivaliam a cutucar uma caixa de marimbondos com uma vara. Titubeante, Kissinger respondeu: “O problema, senhor presidente, é que a Força Aérea foi organizada para travar uma batalha aérea contra a União Soviética. Ela não está preparada para esta guerra... na verdade, não está preparada para nenhuma das guerras que possivelmente teremos de lutar.”

"Ele [Nixon] quer uma campanha de bombardeio maciço no Camboja. É uma ordem, deve ser cumprida"

Cinco minutos depois de terminada a conversação com Nixon, Kissinger chamou o general Alexander Haig para transmitir-lhe as novas ordens do presidente: “Ele quer uma campanha de bombardeio maciço no Camboja. Ele não quer ouvir nada. É uma ordem, deve ser cumprida. Qualquer coisa que voe contra qualquer coisa que se mova. Entendeu bem?”. A resposta de Haig, a custo audível na gravação, soa como uma risada.

O bombardeio do Camboja pelos Estados Unidos continua sendo um tema polêmico e emblemático. Ele contribuiu para mobilizar os movimentos pacifistas e, ainda hoje, costuma ser mencionado como um exemplo dos crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos. Autores como Noam Chomsky, Christopher Hitchens e William Shawcross surgiram como intérpretes políticos influentes depois de terem condenado o bombardeio e a política externa que ele simbolizava.

Do final da guerra do Vietnã para cá, estabeleceu-se um certo consenso quanto à amplitude do envolvimento norte-americano no Camboja. Os detalhes são controvertidos, mas a história começa para valer em 18 de março de 1969, quando os Estados Unidos lançaram a operação Menu. Seguiu-se a ofensiva terrestre conjunta EUA-Vietnã do Sul. Nos três anos seguintes, os Estados Unidos continuaram com os ataques aéreos ordenados por Nixon, atingindo cada vez mais fundo o território do Camboja, inicialmente para destruir o VC/ENV, e, em seguida, para proteger o regime de Lon Nol contra um número crescente de forças comunistas cambojanas. O Congresso cortou o financiamento para a guerra e impôs a suspensão do bombardeio em 15 de agosto de 1973, em meio a pedidos de impeachment para Nixon por sua conduta fraudulenta ao ordenar a escalada da campanha.

Graças ao banco de dados, sabe-se, agora, que o bombardeio do Camboja começou em 1965, durante o governo Johnson, e não em 1969. Esse último ano assinalou não propriamente o início da campanha, mas a sua escalada sob a forma de bombardeios de saturação. Entre 1965 e 1968, os Estados Unidos já tinham lançado 2.565 surtidas e 214 toneladas de bombas no Camboja. Esses ataques iniciais tiveram provavelmente uma finalidade tática, de apoio às quase duas mil incursões terrestres realizadas em sigilo pela CIA e pelas Forças Especiais naquele período. A frota de B52 – bombardeiros de longo alcance, capazes de transportar uma potente carga de bombas – não foi acionada então, seja porque a sua utilização poderia pôr em risco vidas cambojanas e comprometer a neutralidade do país, seja porque a eficácia estratégica dos bombardeios de saturação era considerada limitada.

Nixon optou por um curso de ação diverso e, de 1969 em diante, a Força Aérea começou a enviar os B52 contra o Camboja. A nova justificativa apresentada para o bombardeio era a de que ele manteria as forças inimigas acuada durante o tempo suficiente para os Estados Unidos se retirarem do Vietnã. O general norte-americano Theodore Mataxis caracterizou a manobra como “uma ação de contenção... O grupo vai pela estrada, tendo os lobos no seu encalço; então, atiramos fora um troço qualquer e deixamos que eles mastiguem.” Como corolário, os cambojanos foram transformados em carne de canhão para proteger vidas norte-americanas.

Tiro pela culatra: os bombardeios dão ao pequeno Khmer Vermelho as condições para a chegada ao poder

A última fase da campanha, de fevereiro a agosto de 1973, teve por objetivo deter o avanço do Khmer Vermelho sobre a capital cambojana, Phnom Penh. Temendo a queda iminente do primeiro dominó do Sudeste Asiático, os EUA partiram para uma escalada da guerra aérea sem precedentes na história – um bombardeio maciço de B52 que se alastrou das cercanias densamente povoadas de Phnom Penh para quase todas as regiões do país. A verdadeira amplitude do bombardeio permanecia ignorada até agora.

Os dados liberados por Clinton mostram que a carga total de bombas lançadas durante o período em questão foi quase cinco vezes maior do que os números geralmente aceitos. A fim de situar em perspectiva o total retificado de 2.756.941 toneladas, os Estados Unidos lançaram pouco mais de 2 milhões de toneladas de bombas durante toda a II Guerra Mundial, incluídas as duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki (de 15 e 20 mil toneladas, respectivamente). O Camboja terá sido o país mais bombardeado em toda a história.

Um B52-D “Big Belly” comporta uma carga útil de até 108 bombas de 225 quilos, ou 42 bombas de 340 quilos, lançadas sobre um alvo de aproximadamente 500 x 1.500 metros. Em muitos casos, as aldeias cambojanas foram atingidas por dezenas de cargas durante horas a fio. O resultado foi a destruição quase total. Um oficial norte-americano afirmou na época: “Tinham-nos dito, como disseram a toda a gente... que os tapetes de bombas eram totalmente devastadores, que nada sobrevivia a um raide de B52.” Anteriormente, o total de vítimas civis provocadas pelo bombardeio era estimado entre 50 e 150 mil mortos. Diante, porém, da quintuplicação da tonelagem revelada pelo banco de dados, esse número foi seguramente maior.

A campanha de bombardeio do Camboja teve dois efeitos colaterais imprevistos que acabaram interagindo para produzir exatamente o efeito-dominó que a intervenção dos EUA no Vietnã pretendia impedir. Primeiro, ela obrigou os comunistas vietnamitas a embrenhar-se no Camboja, colocando-os em estreito contato com os insurgentes do Khmer Vermelho. Segundo, ela empurrou o povo cambojano para os braços do Khmer Vermelho, um movimento que a princípio parecia ter reduzidas chances de êxito revolucionário. O próprio Pol Pot [2] admitiu que o Khmer Vermelho se resumia então a “menos de cinco mil guerrilheiros mal armados... espalhados pelo território do Camboja, inseguros de sua estratégia, tática, lealdade e liderança.”

Anos depois do fim da guerra, o jornalista Bruce Palling perguntou a Chhit Do, um ex-comandante do Khmer Vermelho, se as suas forças tinham se utilizado do bombardeio para alimentar a propaganda anti-EUA. Chhit respondeu:

Depois de um bombardeio, eles sempre levavam a gente para ver as crateras, para ver como elas eram grandes e fundas, para ver como a terra ficava revolvida e estorricada... Às vezes, os pobres-diabos cagavam nas calças, literalmente, quando vinham as bombas e granadas mais pesadas. Eles simplesmente saíam do ar, ficavam mudos, andando sem destino durante três, quatro dias... Aterrorizado e um tanto abalado, o povo estava preparado para acreditar naquilo que lhe diziam. Foi por causa de sua revolta com o bombardeio que eles continuaram a colaborar com o Khmer Vermelho, a engrossar as suas fileiras, a mandar os filhos embora de casa para se apresentarem como voluntários... Quando as bombas caíam e matavam criancinhas de colo, seus pais aderiam em peso ao Khmer Vermelho.

O governo Nixon sabia que o Khmer Vermelho estava ganhando os camponeses para a sua causa. O Diretório de Operações da CIA, após investigações conduzidas ao sul de Phnom Penh, informou, em maio de 1973, que os comunistas estavam “utilizando os danos causados pelos ataques de B52 como peça principal de sua propaganda.” Mas esse fato parece não ter recebido prioridade nas considerações de ordem estratégica.

Impotência do Congresso: por meio da mentira, Nixon prolonga ataques e guerra durante anos anos

O governo Nixon manteve o bombardeio em segredo por tanto tempo, que as discussões sobre o seu impacto tiveram lugar tarde demais. Somente em 1973 o Congresso, irritado com a devastação causada pela campanha e com a fraude sistemática utilizada para acobertá-la, decretou a sua suspensão. Mas então, o estrago já tinha sido feito. O Khmer Vermelho, contando com mais de 200 mil soldados e milicianos por volta de 1973, tomou Phnom Penh dois anos depois. E não parou, submetendo o Camboja a uma revolução agrária maoísta e ao genocídio que matou mais de 1,7 milhão de pessoas.

A Doutrina Nixon partia do pressuposto de que os Estados Unidos poderiam suprir um regime aliado com os recursos necessários para enfrentar desafios internos ou externos, enquanto as suas tropas terrestres eram desengajadas ou, em certos casos, simplesmente se mantinham de prontidão nas proximidades. No Vietnã, ela implicou desenvolver a capacidade de combate do exército sul-vietnamita enquanto as unidades norte-americanas se retiravam gradualmente do terreno. No Camboja, Washington forneceu ajuda militar para sustentar o regime de Lon Nol de 1970 a 1975, enquanto a força aérea dos EUA executava a sua campanha de bombardeio maciço.

A estratégia dos Estados Unidos no Iraque poderá sofrer uma mudança de curso semelhante. Seymour Hersch, escrevendo na revista New Yorker em dezembro de 2005, notou que um aspecto fundamental dos planos de redução de tropas dos EUA seria a sua substituição pelo poder aéreo. “Pretendemos apenas modificar a proporção das forças empenhadas em combate – infantaria iraquiana com apoio dos Estados Unidos e maior utilização do poder aéreo,” afirmou Patrick Clawson, vice-diretor do Washington Institute for Near East Policy (WINEP).

Os críticos argumentam que a primazia do poder aéreo poderá causar um número ainda maior de vítimas civis, acabando por favorecer a insurgência no Iraque. Andrew Brookes, ex-diretor de estudos do poder aéreo da Escola do Estado-Maior da Real Força Aérea (RAF), disse a Hersch, “Não acho que o poder aéreo seja uma solução para os problemas enfrentados no Iraque, em absoluto. A substituição de tropas terrestres pela força aérea não funcionou no Vietnã, funcionou?”.

É verdade que os ataques aéreos são mais precisos hoje do que eram durante a guerra da Indochina — portanto, ao menos em teoria, alvos não-identificados seriam atingidos com menos freqüência e o número de vítimas civis tenderia a cair. No entanto, a morte de civis tem sido a norma nas campanhas do Iraque e do Afeganistão, e o mesmo se verificou durante o bombardeio do Líbano pelas forças de Israel em julho-agosto de 2006. Tal como sucedeu no Camboja, os prováveis beneficiários serão os movimentos de insurgência. Para citar um exemplo, em 13 de janeiro de 2006, um ataque desfechado por aviões teleguiados não-tripulados, Predator, contra uma aldeia situada na zona da fronteira paquistanesa matou dezoito civis, entre eles, cinco mulheres e cinco crianças. Essas mortes reverteram as expectativas favoráveis geradas pelos bilhões de dólares investidos naquela região do Paquistão após o terremoto devastador de meses antes. A questão vem a propósito: os bombardeios compensarão os riscos estratégicos?

Se a experiência do Camboja nos ensinou algo, foi que a subestimação da mortandade de civis resulta em parte de uma incapacidade de compreender como as insurgências se processam. Os motivos que levam a população local a colaborar com tais movimentos não se encaixam nas digressões estratégicas do tipo daquelas praticadas por Kissinger e Nixon. Aqueles que tiveram as suas vidas arruinadas não se preocupam com as razões de ordem geopolítica por trás dos ataques; eles tendem a responsabilizar os atacantes. O fracasso da intervenção dos Estados Unidos no Camboja reside não somente na mortandade de civis causada por uma campanha de bombardeio jamais vista em toda a história, mas também na sucessão de fatos que ela desencadeou, quando o regime do Khmer Vermelho se ergueu das crateras de bombas com trágicas conseqüências. A evolução dos acontecimentos no Iraque poderá tomar um rumo semelhante.

Tradução: Hugo Mader




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